Forasteiro



A boca, a palavra

e novamente o pedaço do mundo no seu olhar



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"Vantagem de um estranho é que confiamos essa mentira de termos uma só alma."

Mia Couto


Não sei quem inventou o vácuo e nem quem inventou a ausência que vive estampada nos textos dos melhores poetas. Não sei quem inventou a lua, e nem o óbvio da saudade e da imensidão dos quereres. Não faço a menor idéia de quem inventou os abismos das imensidões dos poetas. Mas certamente descobri um homem escrevendo com a fome e necessidade de engolir o mundo, feito mulher.

O Forasteiro é um desses anônimos do deserto. A boca desenhada por Deus, tamanha a perfeição e delicadeza, é uma paisagem em si mesmo que o desenha além e outras infinitudes. Foi assim a princípio que me vi diante de um forasteiro, um estrangeiro em sua estepe, um lobo do deserto e de solidões de si mesmo. Um poeta caminhando numa praia deserta acompanhado (e bem acompanhado) por suas palavras, cada uma a traduzir o outro, o que não é nada semelhante, o diferente, o que está fora e ele tão desarrumadamente sabe como realinhar e disciplinar o que jamais poderia ter nexo algum se fosse dito (vivido) por outro homem. O forasteiro? Ele tem as vísceras que respiram poesia em prosa. Um homem do deserto, que campeia sozinho as suas idéias e que de tão arisco, suspeito, inventou para si outros poemas e outras frases que nos acordam, sacodem, fazem os nossos ossos arderem ao lê-lo e a querer mais dele, das palavras e daquele cenário que ele tão bem molda ao nosso alcance. Ao dente. Como uma bela macarronada que se come puxando um fio que nunca tem fim.

Tem a boca.
Tem o olhar. Tem os desertos na língua e corpo que faz marca quando deita e diz que ama. Tem o mistério de ler Mia Couto e sentir que é uma das melhores coisas que já lhe aconteceu nos últimos dias. Não acredito que tenha apenas uma alma. Um homem que gosta de Mia é como um homem que pariu o mundo e se descobriu azul. Todos os azuis que sorriem em sua boca de monalisa chamam pelo seu nome.

Esse moço é mais. Será sempre o forasteiro que nos chama a atenção pelo belo texto e textura de sua pele e de suas entranhas.
É o desejo e a carta e a vontade de comer quando a pele nos ensina e dá sinais de um mistério muito maior que o viver.

É o moço que escolhi como AO sem saber e me vi por dias e dias, a Madalena exposta em sua página tentando decifrar o seu sorriso, a monalisa no deserto, braços fechados, mãos abertas para outros silêncios que só Madalena entenderia, porque tem a pele azulada de outros serenos.

O Forasteiro?
É uma incógnita, um poema rupestre, uma inscrição em branco e preto. O que se inscreve de mistério e ternura se aponta/apresenta como um pai amoroso e um amante apaixonante. Um homem que acima de tudo se assina distante e ainda assim se faz presente quando o seu silêncio é uma prosa bem feita, carnuda e saliente em seus desertos.

Ele é íntimo de si e de suas cumplicidades com as lembranças. Talvez ele nem exista e o que sentimos ao lê-lo seja apenas um desejo maior de entrar em seu mundo e de conquistarmos assim as aventuras de um aquariano, solitário que desenha o homem e a semelhança da mulher.


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O leito, o leite condensado no chão, a mulher que se toca, o homem que se abraça e se revela corpo em inúmeras almas, tem a semelhança do outro e é assim mesmo que me vejo nele, uma mulher e um homem ávidos por toda a vida.

Eis-me revelada. A amiga, a fã apaixonada desse personagem novo nesse universo blogueiro de grandes revelações literárias. E viva o Mia, o forasteiro, e essa
Loba mágica por nos proporcionar encontros tão excitantes quanto os nossos.

Dira/Mel Vieira